Quem escreve quer ser lido, sim.

Escrever de verdade é diferente de fazer um auto-relato. Um dia, meu analista me deu essa alfinetada na terapia e, como boa neurótica, fiquei ofendidinha, pois tenho diários desde que fui alfabetizada.

Acho que ele não falou exatamente dessa forma, já não lembro ao certo, mas as palavras escrever / diferente / auto-relato me acertaram como um raio — metáfora ótima para traduzir o ato anaítico, aquele momento na análise em que a gente se dá conta de um ponto-cego e sente que vale a pena pagar quase um barão por mês para se escutar através dos ouvidos de outra pessoa.

Eu estava angustiada porque queria e precisava escrever para minha supervisora os relatos dos casos que acompanho como analista e não conseguia redigir algo que não estivesse totalmente atravessado pelas minhas impressões dos atendimentos.

Ora, pombas, sou Junguiana justamente porque Carlos Gustavo não tinha medo do afeto, o homem apostava todas as fichas do sucesso da análise na relação terapêutica, essa coisa que se forma a partir da personalidade dos envolvidos — analista e analisante. Como eu poderia escrever sobre um caso sem me relatar?

Mas o alfinete de Merlin (é como eu chamo meu analista) ficou ali… Alfinetando. Tá até hoje, aliás. Espetou tanto que eu desativei o instagram e decidi finalmente usar o Substack para escrever de verdade e, quem sabe, ser lida de verdade. Deixem de hipocrisia… Quem escreve publicamente quer ser lido, sim.

Gypsy Rose Lee in 1941, working on her novel “The G-String Murders. – fonte: Pinterest

E, ao querer ser lida, questiono: Quanto de auto-relato pode haver num texto que se dirige ao outro? Me vem tanta gente com seus escritos encharcados de si mesmos… Clarice Lispector, Henry Miller, Adelia Prado, Machado de Assis, Chimamanda, Tolstoi, Matilde Campilho, Reiner Maria Rilke, Anne Carson, Carl Gustav Jung; penso, inclusive, nos textos que meu analista escreve na página dele, onde consigo praticamente ouvir a sua voz falando cada palavra.

Mas eu venho entendendo porquê a provocação me eletrocutou… É que o auto-relato pode ser um texto descompromissado e egocêntrico, talvez até preguiçoso. Assim… a pura catarse, o vômito de quem precisa pôr um troço pra fora e fica ali, à espera que olhos generosos venham ler aquela nudez. Um texto meio negligente, indiferente à interlocução, embora desesperado por esse grande voyeur que vai gostar desse exibicionismo e aplaudir a poética de nossa nudez regurgitada.

Como é difícil escrever sem auto-relato… Valha-me Camões!


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Publicado por Renata Netto do Nascimento

Terapeuta

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