Um menino com o olhar de quem já viu demais da realidade entrou na pequena brinquedoteca. Embora fosse alto e parecesse calçar quarenta, não tinha aquela malícia iniciante de pré-adolescente que revira os olhos para oferecer resistência às imposições da vida… Brincando como quem sonha com cenários diferentes daqueles com os quais está acostumado, Michel parecia ter só uns 9 anos.
Eu estava no INSS com minha mãe, tinha acabado de fazer uma perícia médica para renovar a licença do pé quebrado e a salinha infantil improvisada com doações era o lugar mais perto da porta para esperarmos nossa carona.
Enquanto eu e ela falávamos das contradições político-econômicas do Governo e suas instituições, o garoto chegou com a mãe dele e aquela aparência sofrida da grande maioria dos usuários da Previdência Social — uma família nitidamente de poucos recursos, necessitada da proteção do Estado.
A mãe pegou a senha, foi para a fila e Michel foi logo para ali. Pegou um livro, sentou-se na cadeira ao meu lado, folheou, leu um bocadinho… Pegou outro, voltou, passou umas páginas… Olhava de relance para mim e para minha mãe, sorrindo em busca de alguma interação, mas a timidez não o deixava esticar conversa. Havia um carrinho em cima da poltrona; ele o pegou e foi até a mãe.
Nossa carona ia demorar a chegar e, como eu sempre fico tocada e reflexiva quando estou na vida lá fora, comecei a imaginar o diálogo entre eles:
— Mãe, olha que legal esse carrinho!
— É sim, filho… Brilhante, né? — respondeu a mãe, olhando para o monitor das senhas, aguardando sua vez.
— Queria levar ele pra casa…
— Tá doido, menino? Isso não é seu… Devolve lá pra caixa de brinquedos, que é para as outras crianças brincarem também.
Voltou Michel com o mini-veículo e começou a criar coisas com os demais brinquedos, tão desbotados e danificados como aquele velho prédio público. Construiu um muro e um portão com umas peças parecidas com Lego, em volta da mesinha, de onde o carrinho entrava e saía. Repetiu várias e várias vezes a mesma manobra e, mostrando que seu desenvolvimento anímico estava em dia, brincou sozinho ali por uns quarenta minutos.
Quando penso nas notícias dos rombos na Previdência Social, penso nas mães daqueles que desviam recursos e se apropriam de um dinheiro que não lhes pertence. Penso na infância que tiveram e em quantas vezes suas professoras do jardim de infância disseram que os brinquedos da escola eram para todas as crianças. Imagino se tiveram irmãos e primos com quem pegavam coisas emprestadas e depois as tias e avós os faziam devolver.
A criança tem o impulso de se apropriar da vida, faz parte do desenvolvimento motor, psíquico, fisiológico e até cultural. É a natureza funcionando em seu ímpeto de formar um Eu. Já a sociedade tem a função de estabelecer o que é comum, o que é de todos, o que não pode ser apropriado por particulares, definindo os limites que dão contorno a esse Eu soberano.
A consciência amadurece nessa tensão entre o individual e o coletivo: vamos construindo as fronteiras do Ego na medida em que nossos apetites pueris são confrontados com o Mundo e sofrem seus interditos.
Quem rouba a res publica, aquilo que pertence a todos porque não pode pertencer a ninguém individualmente, está na infância psíquica e não tem fronteiras entre as vontades insaciáveis do Ego e as necessidades impostas pela realidade. Vulgo, ganância.
Os brinquedos da agência do INSS da minha cidade não tinham selo de patrimônio e certamente não foram adquiridos mediante licitação, como mandam as regras da Administração Pública. Eu compreendo que uma brinquedoteca não compõe uma atividade-fim da Autarquia, mas não consigo deixar escapar o simbólico disso tudo.
A atmosfera de precariedade da Seguridade Social — e aqui englobo Previdência, Assistência e Saúde — não é composta da pobreza econômica dos seus usuários, mas sim da miséria psíquica dos administradores da máquina pública, que operam as instituições como crianças querendo o brinquedo só para si.

A senha da mãe de Michel apareceu na tela e eles subiram para o atendimento. Minha carona ainda demoraria a chegar e abri as notas do celular para rascunhar essa crônica, ouvindo a música Força Estranha tocar na minha cabeça, mas com uma pequena variação:
“Eu vi o menino brincando… Eu vi o sonho…” — era a linha de abertura do texto.
Eu os vi descer e caminhar na direção da saída, quando o menino parou mais uma vez na brinquedoteca e pegou o carrinho nas mãos. Desejando levá-lo para casa, devolveu-o para a caixa, pensando nas outras crianças que também iam querer se distrair ali enquanto esperavam suas famílias receberem a assistência do Estado.
A voz de Gal Costa embalou minha imaginação sobre o carro que Michel gostaria de ter quando crescer e sobre uma gestão pública que faça do Brasil um lugar onde ele possa conquistar esse sonho honestamente.
Descubra mais sobre Renata Netto do Nascimento
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.