
Crescendo com as cartas
A foto é de carnaval, mas a alma cigana não é apenas uma fantasia… Desde essa idade aí que amo as artes oraculares, tão valorizadas entre os povos considerados “marginais” pelo racionalismo.
Filha e sobrinha de astrólogas-raiz, cresci com conversas à mesa do almoço de domingo falando sobre mercúrio retrógrado, lua fora de curso e melhores datas para fazer coisas importantes, conforme as estrelas orientavam.
Minha mãe cursava tarô e, quando terminou as aulas, eu fiquei com o baralho de estudo dela, ainda bem pequenininha (e depois ela ficou com um baralho para usar, é claro!).
Fato é que eu carregava aquilo comigo e brincava de cigana com a minha prima, até porque era época de Dara, da novela Explode Coração… rsrsrs
E foi assim que as imagens arquetípicas do Tarô chegaram para mim, numa época em que eu nem tinha consciência da jornada d’O Louco ao Mundo que é estar vivo neste planeta.
Na adolescência, eu era a amiga que “botava umas cartas” para as amigas e, de uma forma ou de outra, ficava como conselheira espiritual do meu grupinho quando algo mais ilógico acontecia com elas.
Já adulta, na véspera do meu primeiro casamento e saída da minha cidade natal, eu sonhei que era o próprio Eremita, o 9º Arcano do Tarô, numa verdadeira premonição simbólica do que seriam os 9 anos seguintes da minha vida: introspecção, silêncio, exílio, revisão da própria biografia, análise crítica do que eu havia feito até ali e projeção e planejamento dos passos adelante…
Experiência Prática
Por ser muito reflexiva, curiosa e apaixonada pela simbologia das cartas, estudo sistematicamente e faço uso constante do Tarô desde os meus 15 anos de idade (tenho 37, rs).
Em 2020 comecei a atender consulentes de forma profissional e desde 2024 que aceitei o chamado de ensinar sobre este oráculo na sua abordagem mais terapêutica, tendo como plano de fundo a psicologia complexa de Carl Jung (*).

(*) Tenho pavor de desonestidade intelectual e argumentos de autoridade, por isso preciso clarificar uma coisa aqui: não existe um “Tarô Junguiano”; Jung nunca falou de tarô como parte de sua rica teoria e prática clínica. O que eu, Renata, faço é utilizar minha bagagem como terapeuta junguiana para ler o tarô de forma mais ampla e profunda.
Divinação x Adivinhação
Então, ao longo dos anos de estudo e prática com o tarô, aprendi que o seu uso adivinhatório só é possível a pessoas que conseguem acessar estados alterados de consciência e entrevêem, nas fendas da razão e da lógica, algum acontecimento noutro espaço-tempo diferente do aqui-agora, fazendo assim uma espécie de previsão do futuro ou revelação do passado “sem que a pessoa tenha falado nada para a cartomante” ─ quem nunca ouviu isso de alguém contando como foi na consulta de tarô? …
Este terreno da mediunidade é muito delicado, no qual só se deve pisar com o máximo respeito e a devida iniciação, coisa que eu até tenho mas cuja vivência eu reservo ao ambiente espiritualmente preparado de um templo.
Sendo assim, eu pratico a arte do tarô de uma outra maneira, que é a divinatória. A palavra divinação vem do que os povos antigos faziam através dos seus variados oráculos: entrar em contato com o divino dentro de si, compreendendo a realidade pela combinação de todas as funções psíquicas ─ intuição, sensação, sentimento e pensamento.
Então, ainda que haja uma diminuição das censuras do ego para que o conteúdo inconsciente possa ser lido através das imagens do baralho, a consciência do intérprete está presente e ativa, junto com a do consulente, na construção dos significados sobre a composição das cartas numa tiragem.
Como funciona?
Portanto, ao fazer uma pergunta para o tarô, é preciso duas atitudes fundamentais: (1) atenção plena às coincidências significativas (sincronicidades) que aparecem durante a interpretação e (2) disponibilidade para receber uma resposta diferente da que gostaríamos e que nos chama à responsabilidade pelas nossas decisões.

Na leitura terapêutica, buscamos compreender o que não está sendo percebido pelo consulente, ganhando clareza dos pontos-cegos e uma visão sistêmica dos fatores que influenciam a situação sob consulta. Assim, a pessoa pode se apropriar das suas decisões, deixando de ser refém do destino e traçando rotas que façam mais sentido para os seus objetivos de vida.