Durante meus anos anos emigrada, vivi as delícias do anonimato. Aquela sensação de poder ser o que eu quisesse, já que ninguém me conhecia.
Existir sem referências por perto, buscando algo de familiar em cada situação sem, contudo, perder o espanto filosófico que só a novidade proporciona.
Porém, essa liberdade muitas vezes custava um preço alto: a dor do exílio. Andar pelas ruas, dia após dia, e não ver um rosto conhecido sequer.
Agora, de volta não só ao Brasil mas à cidade onde nasci e cresci, circular no dia-a-dia e topar com gente que fez parte significativa dos roteiros da primeira temporada da minha vida, tem um valor imensurável pra mim.
Ir na sorveteria e encontrar meu médico homeopata da vida toda… Levar minha cadela para passear e ver o vizinho que estudava na minha classe no colégio… Ir no mercado e encontrar o “tio do micro” (moço que dirigia o micro-ônibus) que me levava e buscava na escola durante todos os 13 anos letivos… Caminhar cedinho e encontrar a colega de centro espírita que fez desenvolvimento mediúnico comigo… Comprar uma torneira e encontrar o primeiro cliente que defendi como advogada… Andar na rua do comércio da cidade e encontrar um antigo chefe… Estar num café, escrevendo e ouvindo música, e de repente ser cumprimentada por um ex-namorado… Entrar pra corrente no terreiro no mesmo dia que uma das minhas veteranas da primeira faculdade…
Essas pessoas testemunharam Renata se fazendo Renata. Algumas estiveram no episódio piloto, que determinou a tônica da série inteira. A presença delas no horizonte do meu cotidiano não é apenas reconhecimento, mas também a reedição de algo muito original de mim mesma.
Mas, aqui, um paradoxo interessante acontece: mesmo nessa reminiscência, há uma novidade; sinto um certo anonimato perante essas pessoas que me chamam pelo meu nome.
Elas encontram comigo e vêem Renata. Mas não me vêem a mim. E eu também vejo pouco ou nada além de Júlio, Igor, João, Adriana, Paulo, Francisco, Mozart, Juliana…
Isso me faz lembrar o poema de Fauzi: “mas eu não sou o meu nome e você não é ninguém”1...
Ulisses retornou à Ítaca e apenas o seu cachorro lhe reconheceu… Os humanos, não. Nem mesmo Penélope identificou seu amado sob os andrajos de mendigo. Até depois de o reconhecerem, não o conheciam mais.
É claro que, durante minha odisseia, fui me conectando com pessoas que se tornaram vínculos fortes ─ afetivos, profissionais, comunitários… Afinal vivi 5 anos e meio fora e, como boa extrovertida, não tinha a menor hipótese de eu não encontrar a minha gente do lado de lá.
Mas o reconhecimento entre antigos conhecidos está condicionado às memórias dessa coisa que se tornou uma não-relação, pois nem todos podem (nem querem) ver através da mudança evidente.
Apesar de tudo parecer tão familiar, a (volta de uma) migração tonaliza todo reconhecimento com as cores da novidade. E então perguntam como quem não deseja saber a verdade: “Voltou?” E, mais, perguntam como quem investiga o que é que deu errado: “Voltou porquê?”
E, nesse lugar agridoce entre a conterrânea e a forasteira, tenho vontade de responder que não há volta, mas não posso falar de Circe para quem nunca saiu de Ítaca…
Me contento com o olhar meio surpreso, meio decepcionado quando escutam que “Voltei porque não quero viver longe da minha gente”.
Porque gosto de jantar na minha tia e trazer uma marmita pro dia seguinte. De ganhar um ralinho de pia de cozinha da outra tia. De poder acompanhar outra tia num exame médico. De ver de perto os meus sobrinhos crescerem. De estar presente nos dilemas casamenteiros de uma grande amiga. De poder ajudar a outra na luta pela pensão alimentícia do filho. Tudo presencialmente.
Até me divirto quando constatam que voltei porque gosto da audácia filosófica de viver a novidade aqui, onde nasci e cresci, escapando da mesmice enquanto preservo o afeto antigo do que me é caro.
E, mais uma vez, o resto do poema de Fauzi me vem à mente:
Eu vou te contar que você não me conhece
E eu tenho que gritar isso, porque você está surdo
E não me ouve
A sedução me escraviza a você
Ao fim de tudo, você permanece comigo
Mas preso ao que eu criei
E não a mim
E quanto mais falo sobre a verdade inteira
Um abismo maior nos separa
Você não tem um nome, eu tenho
Você é um rosto na multidão
E eu sou o centro das atenções
Mas a mentira da aparência do que eu sou
E a mentira da aparência do que você é
Porque eu
Eu não sou o meu nome
E você não é ninguém
O jogo perigoso que eu pratico aqui
Ele busca chegar ao limite possível de aproximação
Através da aceitação da distância e do reconhecimento dela
Entre eu e você existe a notícia que nos separa
Eu quero que você me veja a mim
Eu me dispo da notícia
E a minha nudez, parada, te denuncia e te espelha
Eu me delato
Tu me relatas
Eu nos acuso e confesso por nós
Assim me livro das palavras
Com as quais você me veste
- O Poema de Fauzi Arap, recitado por Maria Bethânia naquela dramaticidade toda pra introduzir a música “Um Jeito Estúpido de Amar” ↩︎
Aquele abraço,
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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