
Dois tucanos capturaram a minha atenção enquanto eu caminhava para o trabalho. Eu já tinha saído atrasadinha de casa mas mesmo assim parei para contemplá-los.
Quando fui tirar a foto com meu modesto telemóvel, um deles, como quem percebe a invasão paparazzi, foi do poste para o cabo do outro lado da rua, num vôo rasante que me desconcentrou e desconcertou.
A câmera capturou o exato momento do impulso do vôo, mas meus olhos acompanharam aquele bicão laranja fugidio deslizando sob o céu cinzento deste outono que acabou de começar.
Minha memória armazenou o que pôde e vai manter o acervo vivo enquanto não estiver ocupada com outros afetos. O registro fotográfico me permitirá rever a imagem e lembrar da beleza daquele momento quando o tempo já me tiver feito esquecê-lo.
Logo depois, chequei no app do autocarro se tinha perdido o horário ou se ainda conseguia apanhá-lo. Na paragem do meu bairro já não dava, então verifiquei na outra mais a seguir, onde passavam outras carreiras… Só dali a 23min; já não chegaria a horas na escola para dar a aula. Tive de apanhar um uber.
(Pausei agora aqui a escrita para dar uma colherada no pudim e um gole no café e dei por mim a vos escrever num momento “tuga culture” que acalento no coração ─ beber café a seguir ao almoço ─ num restaurante onde trabalha um rapaz do Porto e que tem aquela fala amigável que me lembra o que de melhor vivi em Portugal. Por isso, o texto está a sair um bocado pt-pt e meio pt-br).
Tá captando a ideia de que tempo não se gere?
Seguindo…
Não estiquei a corda filosófica com os alunos porque a disciplina era empreendedorismo, rsrs… Porém, é bastante filosófica a constatação de que uma das competências fundamentais para o “empreendedor de sucesso” simplesmente não existe.
Essa coisa de ser terapeuta e professora é tramada, já não consigo mais (e nem quero) transmitir um conteúdo dissociado da economia psíquica envolvida…
Nessa aula de gestão de tempo, vimos o quanto executamos nossas tarefas com base nas emoções que elas nos causam e notamos que a razão define prioridades de maneira a distribuir, digamos assim, essas emoções numa cronologia que conseguimos sustentar melhor.
Exemplo: os alunos estudam primeiro para a matéria que têm mais dificuldade e que, portanto, causa mais angústia, porque precisam de mais tempo para suportar o aprendizado dela ou porque querem ficar logo livres do fardo. Noutros casos, deixam essa matéria difícil para depois porque não acreditam que podem aprender grande coisa ou até porque não se importam com uma nota baixa. Em todos os exemplos, o objetivo é sempre sofrer o menos possível com a nota e/ou sentir boas coisas (prazer, alívio, entusiasmo, orgulho etc.) por ter um bom desempenho.
A nossa agenda mostra onde a atenção está posta e quantas unidades de medida de tempo imaginamos ser necessária para lidar com o afeto ligado àquela tarefa, executando as ações necessárias para cumpri-la.
Quando ignoramos a limitação do calendário e a flutuação imprevisível dos afetos, acontece o que chamamos de má gestão de tempo. Ou, melhor dizendo, má gestão do foco ─ aquilo que usamos para investir mais ou menos libido numa atividade.
A cada linha que escrevo neste meu caderno (antes de aprimorar no computador), o tempo está passando. Acho que foi esse escorrer pelos dedos que fez o humano inventar coisas para medir e contar o tempo ao longo do processo civilizatório.
Fizemos de tudo para quantificá-lo mas jamais conseguimos apreendê-lo. Segundos, minutos, horas, dias, meses, anos… Nenhuma dessas unidades de medida transforma o tempo num recurso do qual possamos dispor.
O máximo que o tempo se deixa capturar é assim: na concentração do afeto. Criamos uma parafernalha toda ─ relógios, agendas e calendários… ─ para nos ajudar a navegar na nossa tão precarizada atenção.
O foco (da mente ou da câmera) talvez seja o mecanismo que mais aproxima o humano de algum domínio do tempo, pois nos permite dedicar energia ao que é importante e urgente.
Enquanto dimensão da própria vida, o tempo ─ investido ou desperdiçado ─ nos dá o alerta de que caminhamos, sempre, para o grande fim.
Portanto, quanto mais consciência daquilo que captura a nossa atenção, maior a noção dos afetos ali em jogo. E, assim, podemos fazer de Chronos um aliado de Kairós para vivermos uma vida que valha a pena, enfrentando as obrigações sem descuidar do prazer.
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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