… o resto é memória.
Louise Glück
Limpar a casa onde nasci e cresci está sendo um processo higiênico, divertido e — porque não saio das funções de psicanalista e professora — analítico e filosófico.
Apesar do cansaço físico de esfregar 37 anos de história dos pisos e paredes, nada se compara ao trabalho psíquico de revisitar cada canto de onde vivi os primeiros 19 da minha vida.
O perfume do óleo de peroba me fez lembrar da frase de Louise Glück enquanto hidratava as frestas da veneziana por onde espiava o mundo lá fora sem ser vista, quando ainda era criança.
Transitar com luvas e galochas pelos cômodos me dá uma sensação de arqueologista em busca de alguma relíquia que dê notícia das emoções centrais que formaram meus complexos.
O cheiro forte do removedor que tira as cracas do chão parece exorcizar até inhaca psíquica.
A espátula arranca as camadas mais endurecidas de sujeira, como bisturi que corta aquele trauma ali no canto entre as figuras de Pai e de Mãe.
Olho atentamente para enxergar manchas e tentar perceber se a remoção delas requer armas químicas ou poemas.
Algumas paredes vão ter de ser raspadas, lixadas, polidas, os buracos cobertas com massa e pintados, tipo cirurgia estética civil, só que com repercussão na alma.
Alguns buracos seguirão abertos, porque não tem faxina, pedreiro ou decoração que dê conta de tapar todas as faltas.
E talvez nem precise, mesmo, deixar tudo perfeito pra poder morar.
Me habitar já basta.
💛
Te escrevo às 04:09 da manhã porque perdi o sono e fui ler “A Grande Magia – vida criativa sem medo”. Como sempre, esse livro me faz baixar o santo escrevedor, hehehe.
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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