No patriarcado racionalista, a mulher que trabalha com o mistério foi ensinada a se sentir uma charlatã.
Hora de desaprender isso. Foi justamente no alvorecer das “luzes da razão” que mais se perseguiu e assassinou mulheres. Durante a modernidade e o tão bem-falado renascimento, ali pelo século XVI, é que a caça às bruxas ficou mais violenta, num falso antropocentrismo.
Mulheres sábias, que CUIDAVAM da psique de uma comunidade inteira, conheciam das plantas, sabiam ler e escrever, falavam outros idiomas, que interpretavam sonhos, geriam sua fertilidade e escolhiam suas parcerias afetivas, todas essas se enquadravam na tipificação legal do Malleus Maleficarum (código inquisitorial).
Nós, fêmeas da espécie, carregamos essa herança em nossas células e sempre que acessamos ─ dentro e entre a gente ─ uma sabedoria que não vem daquilo que aprendemos a chamar ciência, um sinal de alerta se acende em nós: Herege!!! Cuidado com o tripalium!!!!
Os séculos passaram e hoje somos analistas, terapeutas, psicólogas, facilitadoras… Nos diplomamos em instituições, mas nos formamos no campo e na sujeição ao método que decidimos praticar. Exercemos nosso ofício numa dança bonita entre técnica e intuição.
Por mais teoria que haja sobre uma abordagem terapêtuica, O Mistério está sempre lá. Enquanto tentamos medir tudo, mapear os processos, ligar os efeitos às suas causas, a psique opera numa lógica própria e inapreensível.
Talvez ela só queira uma coisa de nós: que não abandonemos a busca.
Suportar o não-saber sem descambar para a desonestidade intelectual.
Aceitar a lacuna de conhecimento e manter o cuidado epistêmico.
Zelar, sim, pela qualidade do trabalho através do estudo aprofundado das bases da nossa prática, nos reunindo com colegas para escuta-da-escuta, investigando, sempre, a nossa arqueologia e mitologia pessoais e ─ talvez principalmente ─ amando mulheres, a mulheridade e o feminino.
Isso não garante que o sentimento de charlatanismo acabe totalmente, pois os séculos e camadas de misoginia nos atravessam.
Porém, a mulher que trabalha com o mistério não pode se furtar a estes pilares incontornáveis de uma prática clínica decente, sobretudo nas abordagens que consideram o inconsciente.
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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