Eu, às vezes, tenho a sensação de viver congelada no passado… Coisas que aconteceram há muitos anos ainda ressoam como se fossem de agora.
De repente, minha memória deixa de ser lembrança e passa a ser a própria contagem do tempo.
Noutros momentos, quando o presente está muito intenso, tenho a sensação de que Chronos acelera o relógio da vida e faz com que eventos recentes fiquem recuados nas horas antigas da psique.
O mais tirânico dentre os deuses sentencia: Sou o senhor do tempo, quem não me honra no hoje, padece no amanhã.
Padecemos de adiamento e, só quando chegamos num ponto de cansaço de “ficar mudo, sem tentar, sem falar” é que a vida muda, porque já não podemos “deixar tudo como está”, como cantam Zeca e Beth nesse lindo samba…
A angústia ancora a pessoa num tempo-fora-do-tempo. Ao sustentar esse mal-estar e se pôr num lugar de agente do seu sintoma, o paciente finalmente entra em terapia e começa a arrumar o barco para zarpar do cais de aflição e ser timoneiro de sua própria cura.
O samba continua e, a um só tempo, desafia e adocica o general Saturno:
“Não deixe nada pra depois
É a saudade que me diz
Que ainda é tempo pra viver feliz”
Migrar foi um exílio e, como tal, mexeu com minha noção de espaço e percepção do calendário. Em 5 anos e meio de expatriada, concluí que não quero perder mais um minuto sequer do amor dos meus. Minha vida ganha sentido quando posso amar, na prática do dia-a-dia, a minha gente.
Porque, mais poderoso que o tempo, só o afeto.
Abre fendas no espaço e dita o tempo da decisão, da mudança.
Afeto faz até morto reviver; em cada reunião dos que ficaram e que celebram a vida vivida lado-a-lado enquanto Chronos permitiu.
Que a gente não traia o tempo.
Que a gente viva, plena, a duração.
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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