Habituada a me mover em pouco espaço

A bebê que fui aponta para a rua, chorosa, como quem pede para ser libertada da solidão de dentro do cercadinho.

Apesar dos brinquedos disponíveis, o essencial estava fora de alcance: nem colo de mãe ─ que certamente estava às voltas com almoço e casa e filha mais velha indo para a escola ─ nem liberdade para explorar o pequeno mundo da garagem de casa.

A pequena Renata chora e balbuceia alguma coisa para expressar sua raiva e frustração diante de limites tão intransponíveis para o seu corpinho ainda em desenvolvimento.

Como todo bicho humano, sente a angústia do confinamento e da imobilidade ao ver, por através da rede e do portão de casa, que há vida lá fora.

Diante da total dependência de um adulto que lhe dê a chance de experimentar esse mundo, se indigna pelo choro até o cansaço.

Resignada, enfim, habitua-se a se mover em pouco espaço. Brinca dentro do cercadinho. Vê o mundo em quadrados, espiando pelas telas de proteção ─ antes, de nylon; hoje, de led.

Desembarcar da infância talvez seja o único real desafio que temos para conseguir embarcar na grande jornada da vida e desfrutar desse processo doido e doído que é nos tornarmos adultos (leia-se “nos tornarmos quem somos”).

Mas como ninguém está livre da própria mitologia, sempre aparecem novos-velhos cercadinhos para que a pequena Renata possa, enfim, sacudir os limites e aumentar o espaço por onde transita.

Caberá à Renata grande lembrar que seu corpo já aguenta pular o portão e atender ao chamado da rua.

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Publicado por Renata Netto do Nascimento

Terapeuta

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