eu não sabia que doía tanto uma mesa no canto

Falar da morte é tão difícil que até para o algoritmo a gente tem que disfarçar escrevendo m0rt3… Tentamos driblar o buraco que ela deixa através de várias formas: desde a fé no futuro reencontro de almas até a preocupação imediata e diligente com as providências a tomar para quem fica.

Fazemos essa prezepada toda porque o duro mesmo é a mesa no canto, o lugar vazio, a maldita constatação de que nunca mais vamos ver aquela pessoa, ouvir a sua voz, sentir o seu cheiro e ─ no caso do meu pai ─ comer o seu churrasco e tomar uma com ele.

“Se eu soubesse o quanto dói a vida essa dor tão doída não doía assim”… já dizia o samba.

A morte machuca mas talvez não tanto quanto a vida e suas inseguranças. Me parece que a grande angústia da morte é a sua certeza imprevisível.

E, por isso mesmo, o inútil de se precaver contra ela pois, quando ela chega, nunca estamos prontos.

São muitas as mortes que nos visitam ainda em vida: morrem certezas, sonhos, projetos, relações… E, em tudo isso, morre um pouco da gente mesmo.

E aqui vem outra grande angústia: o que fica, de nós e em nós, depois do fim?

“Ficaram as canções e você não ficou”… Toda a proteína que comi nos churrascos dele já foi metabolizada. Toda cerveja que bebi com ele já virou xixi. Grande parte da raiva que senti nas nossas brigas já foi trabalhada em análise.

Talvez apenas uma vida bem vivida ─ junto de quem amamos ─ nos “prepare” para lidar com a finitude e para sobreviver à partida daqueles que amamos.

A vida bem vivida faz permanecer vivo e vivificante o afeto.

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Publicado por Renata Netto do Nascimento

Terapeuta

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