Tenho sentido muita vontade de voltar a escrever. Mas escrever a sério, com regularidade e entrega. Só de escrever isso já vem logo uma pressão produtiva sobre a minha cabeça, definindo regras, procedimentos, periodicidade, disciplina, disciplina, disciplina…
Essa palavra — disciplina — me ronda há tanto tempo… acho que desde que eu me entendo por gente. Também, pudera né?! Nasci ainda sob a sociedade disciplinar e fui educada a me adequar à autoridade.
Hoje, na sociedade de desempenho (v. Byung-Chul Han) , a força disciplinadora tá tão incruada que imediatamente surge uma voz — masculina, é claro — a me dizer: mas vai escrever o que? pra quem? com que conteúdo? com que base? mas tem referências? quem vai se interessar por isso? vai escrever assim, sem método? mas e a regularidade…? vai escrever um dia, outro e depois parar outra vez? melhor nem começar! se for escrever só por catarse, continua só com seus diários e poupa a humanidade da confusão de pensamentos.
Quem aí tem um censor assim também? Agora mesmo, ao fazer essa pergunta, o censor diz: tá perguntando pra quem? quem tá lendo isso? — sendo que ele mesmo me disse para escrever só nos meus diários para poupar a humanidade da minha pequena loucura, hahaha…
O ânimus negativo é assim: nunca tá satisfeito com o que nós mulheres queremos criar e sempre nos questiona: “o que você realmente pensa?”.
O predador natural da psique feminina segue sonso e impávido com sua barba azul, nos dizendo que podemos fazer o que quisermos, exceto abrir a portinha que guarda toda a verdade a respeito da nossa potência envergonhada nos porões do inconsciente.
Tenho a impressão de que, quem escreve, escreve pra ser lido, sim. Mas antes disso, escreve pra soltar as coisas de dentro. É uma escrita para abrir a portinha.
Ainda que não haja espectadores para esta aurora que é a aparição do Si-Mesmo entre uma palavra e outra, só o ato de escrever já alivia a gente de meia dúzia de complexos que apertam o peito. E constela outros, rs…
Olho para as tulipinhas no jarro na minha mesa como quem dá folga para o olhar em busca inspiração. Tem roupa branca secando no varal… A roseira vermelha — pombagira menina, o nome dela — tá ali renovando as folhas ao lado do crisântemo que começou a brotar e florir outra vez.
De repente a escrita vai de crônica para uma narrativa descritiva… É assim quando tocamos nos complexos: queremos fugir. Tudo isso para tentar dar espaço mental para o texto vir.
Talvez seja falta de leitura… Dizem que para escrever bem, tem que ler bem (ler bem eu leio, só leio menos do que gostaria porque fico muito tempo com a cara no Instagram, aquele maledeto, à espera de interação sempre que posto alguma coisa lá… tá vendo? quem escreve quer interlocução).
Dizem o que o papel aceita qualquer coisa… E é verdade.
Dizem também que a palavra escrita tem um poder além da falada, como se materializasse uma ideia e tornasse quase imutável o que foi dito. Cria um compromisso, eu acho.
Atualização em 18/04/2025…
Guardei esse texto por 1 ano… Comecei a escrever dia 15/04/2024 mas não publiquei, ficou aqui nos rascunhos do blog e só foi ao ar hoje (18/04/25).
Há um ano atrás, eu ainda morava em Portugal e estava no auge de um processo de separação após 14 anos de um relacionamento muito bonito. Nem se eu tentasse imaginar muito, poderia prever tudo que aconteceu nesses 370 dias… Uma vida literalmente virada do avesso. Defesas pelo chão, menos 10kg de tanta ansiedade, volta os 10kg depois que tudo se assentou… Muita água salgada envolvida ─ lágrima, suor e mar.
Hoje, estou ajeitando o blog todo porque tô na missão de botar esse desejo fuerte de escrever de verdade para frente, seguindo a intuição feroz de vazar do instagram, mantendo apenas os meus canais “onde falo com mais profundidade”lentos” ─ blog, youtube e talvez o facebook (que segue sendo minha rede social favorita, hehehe).
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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