Muita gente chega na terapia em busca de mudança (evento) mas com uma enorme resistência a mudar (ação).
Há uma espécie de sofrimento que vem da “paz podre” de evitar os conflitos inevitáveis da vida para nos mantemos – placidamente incomodados e incomodamente plácidos – no mesmo sítio. Ou seja: uma homeostase da indecisão (lembrando que deixar de decidir é um tipo de decisão…).
Quando uma pessoa não está consciente de seu próprio centro, põe-se como centro do mundo, exigindo que a mudança aconteça em tudo e todos.
Quando não é centrada, torna-se auto-centrada, incapaz de agir a partir de si para o mundo (e também para si) e refém de agir apenas para si às custas do mundo (e também de si mesma).
Paradoxalmente, a tentativa de suprimir os conflitos torna a pessoa ainda mais conflitiva, pois não pensa tampouco age de um lugar de integridade, mas sim desse peito apertado, vendo apenas a própria imagem atrás da cegueira.
Essa confusão toda é compreensível… Mudar exige o abandono de quem (acreditamos que) somos e a escolha ativa por quem (realmente) desejamos ser. E mais: requer o pagamento do alto preço de suportarmos as ambivalências e ambiguidades que ficam ali entre quem (realmente) somos e quem (acreditamos que) queremos ser.
Nesse Samhain, dia dos mortos na tradição celta, nada como pensar nos pesos-mortos que carregamos para começar a enterrá-los no inverno que se aproxima e, então, voltarmos à vida quando a primavera chegar outra vez…
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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