“Você ama o objeto do seu amor ou você ama amar?”
AFRODITE
Desmanchar o nosso castelo de ilusões. É para isso que a nossa deusa de hoje nos faz essa pergunta frontal, sem meias palavras.
Afrodite é rotulada pelo senso comum como símbolo do amor libertino e da sexualidade promíscua. Isso se deve ao fato de não ser uma deusa casta, como Ártemis ou Atena, nem consorte, como Hera e Perséfone, nem ícone materno, como Deméter. Ela é associada à mulher adulta solteira e sexualmente ativa, facilmente adjetivada pelo patriarcado como puta e todas as alcunhas similares.
Os gregos tinham várias palavras(1) para designar amor: eros, ágape, cáritas, philia, storge, philautia, xênia, pragma, ludus e mania. Cada uma delas exprime uma forma de manifestação do que nós hoje chamamos de amor num sentido universalista. Afrodite é a deusa desse Amor Ideal, que está acima e por entre todas as suas formas manifestas no mundo da vida.
Vênus (nome de sua equivalente no panteão romano) nos fala mais de AMOR que de AMAR. Portanto, nos fala do desejo, da força de coesão que cria e mantém ligados todos os elementos do universo, da pulsão de vida e da reciprocidade(2).
Quando o monoteísmo judaico-cristão diz que “juntos formaram uma só carne”, temos, segundo algumas interpretações, o retrato da chaga de Afrodite, pois evoca uma entrega tão grande que a pessoa deixa de ser um indivíduo (indivisível) e passa a dissolver-se e a fundir-se ao objeto amado.
No real, o que ocorre é um tipo de duplicação, como se o ser amado fosse um espelho. Sigmund Freud, sob influência de Nietzsche, nos ensina sobre isso na segunda etapa da sua obra monumental, ao falar que nós amamos a partir das nossas projeções e identificações com o outro; amamos aquilo que está “atrás” do outro – seja algo de nós mesmos ou algo que nos supre as lacunas existenciais.
Ignorarmos que o que fazemos é amar o ato de amar, amar o como nos sentimos enquanto amamos, amar o que o outro desperta em nós, amar quem somos ao lado do outro (essa é clássica!), amar o desejo, amar o amor, amar amar…
Por mais cruel que isso pareça, o outro é apenas um receptáculo dos nossos impulsos desejantes. E nós, o receptáculo dos do outro. Assim temos formado e mantido a civilização…
Até aqueles amores muito espirituais, transcendentes, crí(s)ticos, universais, que a gente jura que são altruístas e desinteressados, não escapam das projeções. Só que eles têm efeitos mais “bonitos”, socialmente louváveis e até mesmo concretamente bons.
Jacques Lacan, o enigmático, provoca ainda mais ao dizer que a relação sexual não existe. Isto é, aquele encaixe amoroso que todos fantasiamos, não existe. Noutras palavras, não há fórmula para o amor… Não importa quantas oferendas, altares, orações, rituais e invocações façamos para Afrodite!
O máximo que a deusa fará será nos desafiar a olhar o radical da subjetividade do outro, na sua essência existencial e na sua existência essencial, e a pensar e viver o amor como um caminho de conexão entre as pessoas a partir de um respeito profundo pelas singularidades, pelo que único de cada sujeito.
Afrodite ferida dilui-se na sua entrega. Afrodite integrada compõe com seu(s) par(es) uma terceira entidade autônoma; ela constrói, em conjunto, O Amor, O Vínculo, A Relação que nos eleva para além de nossas personalidades e possibilita uma reeducação sobre as expectativas irreais que levamos para as relações.
Integradas, podemos amar bem e sermos bem amadas.
Um abraço quentinho,
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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(1) Posteriormente, vou escrever um texto sobre os vários tipos de amor. Aguardem!
(2) Como falamos na última live, o grande presente dela para Deméter.
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