A Mulher que Nunca Foi Chamada de Puta Não Sabe que Foi

Prostituta e escritora Lola Benvenutti, autora do livro ‘O prazer é todo nosso’ Foto: Divulgação/ Victor Daguano Fonte: globo.com

“Me chamam de puta mas vivem querendo trepar comigo.”

g., 30 anos.

Se tem uma hipocrisia maior do patriarcado que a demonização da Mulher Afrodite, eu desconheço. Das 6 divindades femininas que vamos encontrar aqui na Jornada, a deusa do amor e da beleza é, sem dúvida, a mais odiada e também a mais desejada.

Ontem Hera nos falou do matrimônio que protege o patrimônio. Se o ventre do qual nascia um ser humano era evidente, o sêmem que o fecundara já não era tão verificável assim. Portanto, garantir a descendência patrilinear só foi possível pelo isolamento da mulher, afastando-a de outros homens e de suas aliadas – as outras deusas.

Há uma mistura de raiva e fascínio em torno do que Afrodite representa. Não quero falar “psicanalês”, mas a teoria freudiana e pós-freudiana da sexualidade nos ajuda a compreender as contradições em torno dessa deusa.

A libido cria e mantém a civilização pela atração apaixonada de uns pelos outros e pela coesão compassiva entre as pessoas.

Entretanto, como cultura, o patriarcado tem se mantido muito mais pela paixão da acumulação, refém de uma constante necessidade de adquirir novos objetos de desejo – sejam putas, sejam bens – já que não há espaço para a compaixão em sua dinâmica.

A poligamia, livre e amorosa em Afrodite, transformou-se em signo de classe e poder no patriarcado ancestral e motivo de escândalo na modernidade burguesa judaicocristã , apesar dos inúmeros romances tórridos e proibidos para satisfazer as sanhas pulsionais.

Sob a convenção da monogamia (e do monoteísmo), quantas relações amorosas (e grupos políticos) começam com uma paixão ardente e morrem no exato momento em que toda aquela descarga libidinal se completa?

Assim no micro como no macro, os vínculos formados pelo amor e pelo prazer afrodisíacos são uma necessidade humana de pertencimento, de conexão e de autoestima. Mas, como toda necessidade traz em si uma vulnerabilidade, é aqui que Afrodite sacode as estruturas do patriarcado.

Para ela, ser frágil é uma de suas forças – ela é a que melhor sabe curar as próprias feridas. Mas a masculinidade viril não consegue suportar essa fragilidade causada pelo êxtase amoroso-sexual da nossa deusa prostituída.

Desse insuportável, nasce o desprezo, o medo, o nojo e a perseguição. O patriarcado, estruturado sob o poder e a dominação, não se pode curvar à vulnerabilidade. Então, silencia homens, que vão abusar de mulheres. Depois de abandonados, traídos ou preteridos, cientes de que ela não existe para os servir, só lhes resta chamá-las de putas.

  • Como pode Afrodite se libertar do isolamento?
  • Como pode ela legitimar o seu desejo e o seu amor livre das amarras convencionais?
  • Como as outras deusas a podem ajudar?

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Publicado por Renata Netto do Nascimento

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