“Meu marido e eu estamos sempre competindo um com o outro.”
h., 48 anos
Se ontem Atena falou de trabalho, hoje Hera vem falar de poder. Um poder do mundo moral, tradicional, outorgado de fora para dentro, pelas instituições e seus ícones, em oposição àquele poder desenvolvido e promulgado de dentro para fora.
A Rainho do Olimpo é a grande representante mítica dos nascimentos, do matrimônio e personifica a crença coletiva, ainda vigente, de que uma mulher só é plenamente legitimada em sociedade depois do matrimônio. Com um homem.
A propósito, já pararam para pensar nas palavras MATRImônio e PATRImônio? Matri- é mãe, -monium é ritual. O casamento, portanto, é ritual através do qual uma mulher passa a estar autorizada sagrada, solene e publicamente a se tornar a mãe dos filhos de um homem que, na qualidade de pai (patri-), transmitirá (-monium) todos os seus bens à sua linhagem.
O termo remonta do século XIV, mas até hoje está presente em nosso discurso. É claro que a carga de significados mudou bastante aqui no ocidente, mas os verbetes dizem mais do que aquilo que denotam, carregando toda uma história de sentidos que repercutem no inconsciente coletivo e em nosso modo de vida.
Comentei na live de abertura da Jornada que Michel Foucault iria nos ajudar a enxergar a condição da mulher pelas lentes da linguagem e das relações de poder. Pois bem: por detrás das palavras escolhidas por uma civilização para dar nome aos seus fenômenos, há uma intenção de manter as posições de poder estabelecidas e perpetuar o campo de forças daí decorrentes, já que o poder se sustenta, a um só tempo, pela oposição de uns e pela sujeição de outros.
Ora, se até hoje usamos, para designar o casamento na letra da lei, uma palavra que traz essa ideia de ritual de passagem da mulher/donzela à categoria de “mãe dos herdeiros de um homem”, não é de se espantar que, depois de seis séculos, ainda haja quem trate a esposa como propriedade. Não é de se espantar que as relações conjugais sejam relações… de poder.
Eu poderia chamar Silvia Fredericci para falar de acumulação primitiva (origem da propriedade privada) e dominação da mulher, mas vocês iriam me achar muito comunista. Não estariam totalmente equivocadas, é verdade. Mas eu prefiro deixar isso para outra hora… 😊
Continuando: até a primeira onda feminista, nesse campo de forças que é o casamento os papeis estavam muito bem delimitados: homem e mulher; pai e mãe; a lei e o amor; superego e id. Mas o mulherio resolveu queimar sutiã. Ainda bem!
Ainda bem, porque já era tempo de as feridas narcísicas da Mulher Hera serem expostas para que pudéssemos perceber que o poder que ela tanto almeja e sente-se capaz de exercer, não vem do homem com quem se casou tampouco de qualquer instituição tradicional e moral, mas dela mesma (coisa que ela aprenderá com Perséfone, nessa jornada).
A competitividade entre o casal (aqui, falando dos heterossexuais) é um sintoma da contemporaneidade porque, entre outros motivos, a emancipação feminina passou e passa pela reivindicação do direito humano à ocupação de lugares antes destinados apenas aos homens – como a política, as universidades, as ciências e a vida pública de modo geral.
Porém, ainda estamos numa fase em que, por vezes, negociamos esse direito humano à ocupação de tais espaços mediante uma concessão bastante problemática: a “masculinização” dos nossos corpos, personalidades, humores, expressões, aparência, processos internos etc.
E isso vai muito além da performance de feminilidade – afinal, Lady MacBeth, personagem emblemática de Shakespeare que deu vida às feridas de Hera, era uma mulher dita feminina na sua aparência e expressão. Se independência das mulheres virá da igualdade, as diferenças precisam estar protegidas.
- Como haver paridade de forças no campo das relações de poder?
- Como se transforma uma relação matrimonial em conjugal?
- Como a Rainha do Olimpo pode sair da posição de propriedade simbólica para a de consorte aliada?
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
Para iniciar seu processo terapêutico comigo, envie uma mensagem:
Descubra mais sobre Renata Netto do Nascimento
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.