“Me sinto muito sozinha depois de todos esses anos dedicada exclusivamente à minha carreira.”
R. 55 anos
Na live de ontem, falei do papel das personalidades divinas femininas nessa Jornada e também sobre um dos grandes paradoxos da contemporaneidade: o entorpecimento pela agitação. Hoje, a Mulher Atena vem trazer as suas questões com a civilização.
Numa cultura de mercado como a nossa, consumir é um fetiche e o trabalho é uma forma de instrumentalizar a força de vida das pessoas para produzir coisas que satisfaçam cada vez mais essa fantasia insaciável.
A enorme variedade de produtos e serviços disponíveis pode dar a impressão de que nosso potencial está sendo muito bem aproveitado, já que as prateleiras e vitrines (montras, cá em Portugal) atendem não só às demandas da sobrevivência, mas também aos mais variados desejos, gostos (gozos) e interesses.
Se temos tantas necessidades (reais e simbólicas) para dar resposta, o trabalho se torna uma exigência da sobrevivência (real e simbólica) e deixa de ser um canal de expressão de capacidade criativa e dos nossos talentos que, só então, também providenciaria o sustento. A lógica se inverte.
Criar e ativar a força produtiva é algo tão inerente ao ser humano que, sem perceber, atrelamos nosso ofício à nossa identidade, a ponto de respondermos com a profissão ao sermos indagadas sobre quem somos. Quem é a Renata? É a coach. Quem é a Joana? É a professora. Quem é a Marcela? É a engenheira. E por aí vai…
No neoliberalismo vigente, a nossa criatividade e produtividade vêm sendo cooptadas para uma lógica perversa sob uma expressão belíssima: “trabalhe com o que você ama e não terá de trabalhar nunca mais”. Afinal, quem não quer que a expressão de seus dons, talentos, competências e criatividade seja o ponto central de sua existência? …
É nesse outro fetiche – o do trabalho como propósito de vida – que a mulher Atena, protagonista desse post, experimenta seu sofrimento. Após ter vivido toda uma vida entorpecida pela agitação de uma busca profissional absoluta, ao se dar conta da passagem do tempo e da (falta de) qualidade de vida, vê-se numa contradição gigante.
Em determinada altura, a solidão de quem passou os anos a adiar o lado pessoal da vida se faz evidente e machuca. Todos os reconhecimentos, o salário e o alto cargo não têm mais o mesmo brilho. Não há um amor para chamar de seu. Não há (atenção aos) filhos. Não há viagens (devidamente saboreadas). Não há memórias com amigos. Não há espiritualidade. Só há a carreira e o intelecto. E o vazio.
Como pode a Mulher Atena sair do modo entorpecida pela agitação para um modo ativa pela potência?
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Um abraço forte e carinhoso,
⚜︎ Renata Netto do Nascimento – Psicoterapeuta Junguiana
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O trabalho como arte (ref. 4º parágrafo) é um olhar que ressoa bastante em mim, porque transcende o aspecto da força produtiva remunerada. Pode ser bom nos permitir descobrir alguns talentos ao nos dedicar um pouco às outras dimensões da vida.
Por isso essa conversa do “trabalho como propósito de vida”, tal como vem sendo propagada hoje em dia, tem um quê de perversa, pois as demandas materiais se sobrepõem na sociedade de consumo e o espaço para a criatividade fica restrito. O que está subjacente a esse adágio “trabalhe com o que ama e nunca mais terá de trabalhar” é a adesão da alma a uma atividade econômica, de tal maneira a reduzir ainda mais os tempos e espaços onde podemos apenas SER…